sábado, 30 de julho de 2016

Contemplar e trabalhar – a revolução de São Bento

Feliz Aniversário pra melhor avó do mundo!

Da família nobre Anicia, nasceu São Bento em Norcia, no ano de 480 e veio à Roma estudar. Segundo a tradição, Bento aos 17 anos achou Roma uma cidade muito estressante e foi meditar no Monte Subiaco por três anos.

Afrescos Medievais no Monastério de São Bento

O Monastério de Subiaco fica a aproximadamente uma hora e um pouquinho de Roma, a mais de 600m sobre o nível do mar. O ar aqui é puro e seu perfume, sempre mediterrâneo.

Entrada do Monastério de São Bento

A primeira residência do santo foi uma ex-casa do imperador Nero por isso aqui paramos para ver um pouco das ruínas que certamente faziam parte do antigo complexo, mas o que nos interessa ainda está um pouco mais adiante.

Nesta região, São Bento fundou doze núcleos monásticos, dos quais somente um sobreviveu ao tempo. Falaremos desta construção num próximo post.

Restos da Vila de Nero, Monastério de São Bento

O primeiro núcleo arquitetônico do "Sacro Speco" foi construido por Gregório Magno e dedicado a São Clemente. O que vemos hoje, esta maravilha arquitetônica encaixada na rocha que nos dá a sensação de estar suspensa no ar, é uma estrutura medieval do século XI: orgânica e espalhada sobre diferentes andares com escadas que os ligam e afrescos por todos os lados, este monastério atrai pessoas com interesse pela religião cristã ou simplesmente apaixonados por afrescos pré-renascimentais e lugares com atmosfera extremamente sugestiva nos arredores de Roma.

Fundamental a compreensão da vida monástica e a relação das tantas ordens que surgiram durante a Idade Média e o papado - veja bolla de 1202 -  para entender a importância da regra beneditina!

Afrescos do Monastério de São Bento

A igreja superior tem suas origens no século XIV e é dividida em duas partes: a primeira, com afrescos da escola de Siena, do século XIV,  cujos afrescos contam a última parte da vida de Cristo; a segunda, realizada por artistas da Umbria e das Marcas, do XV século, nos conta sobre a vida de São Bento.

O maravilhoso pavimento cosmatesco completa a beleza das paredes e do teto. O visitante sente-se facilmente transportado no tempo envolvido por tanta beleza.

Afresco de Medieval de Anjo, Monastério de São Bento

Temos acesso à igreja inferior através de uma escada central, na frente da cátedra, onde vemos afrescos da escola romana do início do século XIII.

A "gruta sagrada" contém uma escultura no lugar onde acredita-se que São Bento meditava, realizada por um "nosso conhecido", o incrível Antonio Raggi - de clara inspiração berniniana!

Afrescos do Monastério de São Bento

Entre tantos afrescos, tem um muito especial na Capela de São Gregório, pois representa São Francisco, provavelmente ainda vivo; acredita-se que tenha sido realizado em 1223, um ano antes do santo receber as estigmas.

Afresco de Sao Francisco um ano antes de receber as estigmas

Dos complexos originalmente fundados pelo santo, ainda está de pé e restauradíssimo, o Monastério de Santa Escolástica, aqui pertinho. 

Eis aí mais um exemplo de um lugar perto de Roma para visitar onde, se você é cristão, vir aqui é uma experiência mística da sua religião; se você não é cristão, permanece o cunho espiritual desta  excursão num lugar que emana paz, cultura e história... e tanta natureza!

Endereço:
Piazzale di Santa Scolastica, 1
Site oficial:
http://www.benedettini-subiaco.it/

Praça Veneza: o Bolo de Noiva ou a Máquina de Escrever


Como pode ser possível numa cidade como Roma um monumento tão grande agradar tão pouco aos romanos?!

Praça Veneza em Roma

As explicações são muitas, mas vamos primeiro ver do que estamos falando.
No que poderíamos chamar de centro geográfico do centro de Roma existe um cruzamento muito importante entre a Via del Corso e a Via Cavour, que muda de nome para Corso Vittorio Emanuele II, na monumental Piazza Venezia.

Este monumento mastodôntico e branco, o que faz com que nós o percebamos ainda maior do que já é, é o famoso Altar da Pátria ou Monumento a Vittorio Emanuele II (ou Víctor Emanuel II, acho impossível e pouco prático para quem está vindo, traduzir nomes próprios). A sua construção iniciou-se em 1885 e tem como finalidade comemorar a união da Itália como a conhecemos hoje.

Altar da Pátria em Roma

Quem ganhou a licitação foi Giuseppe Sacconi, um arquiteto do norte da Itália, inspirado pelos antigos santuários, como o de Palestrina.
E do norte veio também o mármore botticino para a construção deste monumento. A sepultura do soldado desconhecido, que contém os restos mortais de um soldado italiano morto na I Guerra Mundial, foi finalizada em 1921. 

Depois de mil atrasos por causa de verba e da falta de consistência do solo do lado norte da colina do Capitólio, o Altar da Patria ou Vittoriano, assim como o vemos hoje, com o Museo del Risorgimento que ele abriga, só aconteceu em 1935!

Altar da Pátria em Roma

Grandes nomes da virada dos séculos XIX ao XX deram a sua contribuição a este monumento, como por exemplo Manfredo Manfredi com a grade de ferro que o protege; a alegoria no alto do grande portão à esquerda, o “Pensamento”, de Giulio Monteverde; a “Ação”de Francesco Jerace. A fonte à esquerda representa o mar Adriático (de Emilio Quadrelli), sobre a qual se apoiam a “Força” de Augusto Rivalta e a “Concordia” de Ludovico Poliaghi. A fonte à direita, representa como esperado o mar Tirreno, de Pietro Canonica, com o “Sacrifício” de Leonardo Bistolfi e o “Direito” de Ettore Ximenes. Aos leões de Giuseppe Tonnini seguem as “Vitórias aladas”, respectivamente da esquerda à direita, de Edoardo Rubino e Edoardo De Albertis, e por aí vai a poética concepção de Itália do século XIX.

Ruínas do Foro Romano e Altar da Pátria em ROma

Interessante a sepultura do edil plebeu Bibulo, do início do I séc a.C., feita em tufo (pedra lávica) e mármores travertino, que nos conta que os antigos muros servianos passavam logo atrás desta sepultura, dado que enterrar mortos dentro dos muros da cidade não era permitido.

Altar da Pátria em Roma e Palácio Veneza

Os romanos tiram muito sarro deste monumento por várias razões: quem sabe o grande arquiteto não conseguiu dotar seu monumento das graciosas proporções que tinham os templos antigos? Ou o mármore é um mármore não romano”? O resto da história e as fofocas complementares contaremos aqui durante a nossa visita guiada em português, o que você acha?

No alto deste monumento existe um bar e uma vista de tirar o fôlego de qualquer um.

Vista do alto do Palácio Veneza em Roma

sábado, 9 de julho de 2016

Monte Soratte - bate-e-volta de Roma

Visitar o Monte Soratte é uma ótima ideia para quem vem à Roma procurando turismo religioso, trekking ou afrescos da Idade Média. É um lugar apaixonante e com ótima comida, a menos de uma hora de Roma.

arredores de Roma

No meio de uma planície encontra-se esta montanha de 693m de altura, um lugar que sempre foi considerado especial pelas culturas que viveram aqui perto, tanto que o primeiro templo no alto da montanha foi construído no II séc. a.C..

Festa Medieval arredores de Roma
Durante a "Festa da Montanha", cidadãos do "Grupo Histórico" da cidade fazem comidas típicas e servem em roupas medievais.

Essa mítica montanha tem também a ver com os afrescos da Capela de São Silvestro pois segundo uma tradiçao ligada à conversão do imperador Constantino ao cristianismo, o imperador sofria de lepra e seus médicos não sabiam mais o que fazer e sugeriam loucuras, como tomar banho no sangue de 40 crianças, coisa que o imperador não fez. E aí apareceram Pedro e Paulo num sonho num sonho do imperador, que diziam a ele de ir buscar Papa Silvestro que estava exiliado no Monte Soratte para curá-lo.

Eu, no alto do Monte Soratte

Constantino manda seus soldados buscarem o Papa, que volta e apresenta imagens dos santos aparecidos no sonho do imperador. Em seguida, o Papa é batizado por Silvestre e sua lepra é curada - contra toda a aprovação da corte imperial!

Daí à conversão do imperador e ao famoso "Edito de Constantino", que liberava o culto aos cristãos foi tudo muito rápido.

Igreja de São Silvestro

Sentada na frente da Igreja de São Silvestro


No alto do Monte Soratte, com uma vista de tirar o fôlego a 360°C, encontra-se o que hoje é chamado o êremo onde o santo viveu durante o exílio e onde foi construida uma igreja dedicada a São Silvestre, que contém afrescos realizados entre os séculos XIII e XVIII.

Interessante o ciclo com estórias de Santa Bárbara, imagens de São Francisco e algumas imagens da Virgem com o menino Jesus.

Comida típica da região: sopa de legumes e Gnocchi
Não é novidade que a gastronomia faz parte da cultura aqui na Itália. Comemos muito bem: sopa de legumes (a melhor que comi na minha vida) e gnocchi al ragù 


Na cripta, maravilhoso capitéis românicos e imagens de São Silvestre e do Arcânjo Miguel.

Afrescos da Igreja de São SIlvestre
Ciclo de Santa Barbara, Igreja de São Silvestre

Passei dois dias maravilhosos na casa de uma amiga que é de Sant'Oreste, a cidadezinha mais próxima, construída no Monte Soratte. Mas como fica muito perto de Roma, é possível realizar um bate-e-volta, com parada no caminho em tratoria típica.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Via Appia Antiga, alguns detalhes históricos

A importância de ver e caminhar sobre uma rua tão antiga e tão importante para a Roma Republicana e sucessivamente para o Império Romano talvez não tenha sido devidademente sublinhada no post anterior, onde falo muito da beleza comovente desta antiga estrada de Roma, que hoje faz parte de um parque regional de 3400 hectares, instituido no ano de 1998.

Via Appia
 Eu e Giulia ao longe, sorpreendidas por um clic da Christina, super-companheira de passeios na Appia Antiga!

Imaginem que no passado a maior parte dos transportes era feita no "lago" Mediterrâneo (o Mar Mediterrâneo era navegado como se estivessem em um lago, era a dimensão básica para o comércio na antiguidade) ou através dos rios.

Cenotáfio de Annia Regilla

Com Giulia, grande companheira de passeios na Appia Antiga!

A construção da Via Appia, apelidade de Regina Viarum - Rainha das Estradas na antiguidade, pela beleza dos monumentos que foram construidas às suas margens - iniciou-se no ano de 312 a.C. por ordem do censor Appio Claudio. Muito provavelmente ela foi traçada num percurso ainda mais antigo que ligava Roma à Colli Albani, que hoje chamamos "região dos Lagos" ou "Castelli", ao sudoeste de Roma.

Igreja Medieval de São Nicolau
 Com as amigas, dos meus passeios preferidos!

Esta estrada era larga o suficiente para que dois carros passassem nos dois sentidos sem problemas! Interessante e extremamente precisa e eficaz a sua construção, que previa o escorrimento da água para as bordas do basalto, que era perfeitamente cortado e montado e repousava sobre uma sólida estrutura de 1,5m de altura, constituida por pedras grandes, areia e cascalho e uma espécie de cimento.

Pic Nic na Appia Antiga em português
Sou a rainha dos picnics na Appia. Adoro passar até meu aniversário aqui!

Sucessivamente a estrada chegou em Capua, Benevento, Venosa, Taranto e finalmente Brindisi, onde tinha o principal porto que ligava Roma com ao Oriente.

A cada 8-9 milhas (1 milho romano = 1 482,5m) existia uma estação para trocar os cavalos para seguir viagem. O percurso que era percorrido em um dia era de 20-30 milhas.

Ilustração construção hipotética da Appia Antiga
Hipotética construção da antiga estrada

Dado que nas leis antigas enterrar os mortos dentro do perímetro sagrado ("pomério") era proibido, a construção de sepulturas nas estradas que levavam às províncias ("vie consolari") era muito comum.

Com amigas, curtindo a Appia Antiga
Num grande parque com essa paisagem mediterrânea maravilhosamente inigualável!

Entre  os II e IV séculos o início da Via Appia foi o lugar fundamental para a vida dos primeiros cristãos de Roma, pois lá existia um terreno onde estes eram enterrados numa zona destinada exclusivamente à pessoas que compartilhavam a mesma fé: isto é, as catacumbas ou cemitérios, palavra cuja etimologia nos faz retornar ao grego κοιμητήριον (koimētḕrion), "lugar de repouso". Para os cristãos a morte já era um sono após o qual acordariam para a vida eterna.

Visitar a Via Appia hoje é uma enorme emoção para quem entendeu o seu significado; tão forte, ou até mais intenso do que o próprio Coliseu!