segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A Fonte das Tartarugas

A Fonte das Tartarugas

Essa fonte nos surpreende pela sua originalidade, elegância e beleza durante uma caminhada pelo bairro judeu, entre o Rio Tibre a a Área arqueológica de Praça Argentina.
No final do século XVI, após ao trabalhos de conserto e restauro do antigo aqueduto de Água Virgem (que alimenta a famosa Fontana di Trevi), foi determinado que seriam construídas novas fontes. Graças à influência política de um nobre que tinha a mansão da sua família alí perto (os Mattei), o projeto desta fonte era localizado a poucos metros do seu palácio, que garantia pavimentar a praça e fazer a manutenção da limpeza.

A Fonte das Tartarugas, passeios em Roma

À construção da fonte é também ligada uma lenda cujo personagem principal é, claro, um duque da família “Mattei”, que teria perdido muito dinheiro no jogo durante uma noite, e que por esta razão teve a mão da sua futura esposa recusada pelo pai. Para reconquistar a confiança do pai da garota, o duque realizou uma grande festa que durou até à madrugada, e durante este arco de tempo mandou realizar a fonte. Na manhã seguinte ele pegou o pai da sua “ex”-futura noiva e disse: “Veja o que é capaz de fazer em poucas horas um Mattei falido!”. Segundo a lenda, o duque teria conseguido de novo, ter a mão da garota em casamento – e mandou murar a tal janela.

A Fonte das Tartarugas

Lenda ou não, sabemos que o florentino Taddeo Landini realizou esta fonte muito graciosa com meninos, “éfebos” realizados em bronze, apoiados sobre golfinhos, que por sua vez estão apoiados sobre bacias em forma de concha e que jogam com a água. A particularidade desta fonte não é só o tema, mas a riqueza dos cinco tipos de mármore utilizados na sua construção.

A Fonte das Tartarugas

As famosas tartarugas que dão o nome à fonte foram uma ideia do grande Gian Lorenzo, o Bernini, realizadas durante o restauro da fonte, a menos de cem anos da sua construção. A fonte já tinha conchas, garotos e golfinhos, mas não é que as tartarugas dão uma graça ainda maior a esta fonte?!

Para fazer um passeio em português pela cidade de Roma com a gente, de dia ou de noite, por favor entre em contato com a gente através da página http://www.guiabrasileiraemroma.com.br/#!contato/c1lmm e nos conte as datas da sua viagem, quantas pessoas estarão com você e se há crianças no grupo.

Endereço: Piazza Mattei

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Teatro Marcelo de Roma

Teatro Marcelo de Roma

 Depois do Coliseu e bem perto do centro histórico você vai encontrar uma das estruturas arquitetônicas da antiguidade mais impressionantes que chegou até nós depois do Coliseu e do Castel Sant'Angelo: o Teatro Marcello, inaugurado no ano de 17 a. C., isto é, mais antigo do que ambos os outros monumentos citados.

Teatro Marcelo de Roma e templo de Apolo Sosiano

O Teatro Marcelo foi realizado pelo imperador Augusto em homenagem os seu sobrinho e único possível herdeiro que se chamava Marcelo (morto prematuramente  e em circunstâncias pouco claras - coincidência?!), dado que Augusto e Lívia não tiveram filhos homens.  O teatro tem uma grande semelhança com o Coliseu e provavelmente serviu como modelo para este último. Aqui aconteciam espetáculos teatrais e a sua inauguração foi sob o principado do próprio Augusto, em ocasião dos "ludi secolari", com espetáculos teatrais e sacrifícios para comemorar a 'virada do século', que para os romanos tinha a duração de 100-110 anos, "o maximo que durava a vida humana". 
O tufo e o travertino, materiais de construção

A "arquibancada" ('cávea') era originalmente semi-circular com 130m de diâmetro de tipo "romano", isto é, não precisava de acidentes geográficos como colinas pois era erguida através da astúcia dos arquitetos romanos, sobre arcos.  O material de construção é o tufo ( como o Coliseu), obra reticulada e tijolos, revestido por blocos de mármore branco.

Linda vista com o Teatro Marcelo, Templo de Apolo Sosiano e a cupola da Sinagoga de Roma
As chaves dos arcos do lado exterior das arcadas inferiores tinham decorações com máscaras teatrais de mármore que representavam a tragédia, a comédia, o drama e a sátira. Estamos falando mais uma vez de uma decoração luxuosíssima que infelizmente não chegou até nós; temos que nos considerar sortudos por ter boa parte de muro e do revestimento em mármore travertino.
Estruturas revestidas e travertino e o material de construção: tufo

Como no caso do Coliseu, os números de espectadores são estimados e não 100% exatos, no caso do Teatro Marcelo, acredita-se que a capacidade fosse entre 15.000 e 20.000 lugares.

O teatro funcionou até o V séc. d.C. e durante a Alta Idade Média foi ocupado pela família "Fabi", depois utilizado como forte pela família de nobres "Pierleoni", cuja mansão ainda existe em parte ali perto. O palácio passou às mãos dos "Savelli" e  foi restruturado por um grande arquiteto, Baldassare Peruzzi (séc. XVI), que adicionou o edifício no último andar que ainda existe, para depois passar aos "Orsini".

A mansão da família Pierleoni em Roma

No início do século XX o teatro pertencia ainda à família dos "Orsini" e foi expropriado pelo estado, assim como as pequenas oficinas de artesãos que ocupavam as suas arcadas inferiores. Não se maravilhe com as pequenas janelas da construção superior, pois, sim, existem pessoas que moram em apartamentos ali dentro - luxo maior não existe, certo?! 

Hoje acontecem espetáculos de música durante o verão e este complexo de área arqueológica é um dos cantos mais especiais de Roma para quem gosta de arqueologia, junto com os restos do templo dedicado a Apolo ( templo chamado Apolo Sosiano, logo mais vou escrever sobre ele) e vários outros edifícios nas imediações.

Esta área arqueológica é gratuita; visite-a com o devido respeito.

Endereço:  Via del Portico d'Ottavia, 29
Horário de abertura: Primavera-Verão: 09-19h; Outono-Inverno: 09-18h

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Jardim do Tarô de Niki de Saint-Phalle

Jardim do Tarô de Niki de Saint-Phalle

Hoje o blog completa 7 aninhos de existência. Estou comemorando com um post sobre um lugar bem pertinho de Roma onde passei horas muito felizes.  
 

O sol, Jardim do Tarô de Niki de Saint-Phalle

Fonte e Sol, Jardim do Tarô de Niki de Saint-Phalle


Entre Roma e Florença ou Florença e Roma existe um enorme e maravilhoso complexo artístico de dois hectares ao ar livre com esculturas gigantescas: o Jardim do Tarot, da artista francesa Niki de Saint-Phalle (1930-2002). Se você estiver percorrendo este trecho de carro, é uma pausa inesquecível na sua viagem.

A Torre, Jardim do Tarô de Niki de Saint-Phalle

Fonte de Tinguely, Jardim do Tarô de Niki de Saint-Phalle

A artista autodidata iniciou a sua carreira após uma estadia em um hospital psiquiátrico tomando choques elétricos e psicofármacos. Aos poucos começou a pintar e realizar pequenas esculturas e desenvolveu uma linguagem única caracterizada por elementos com um forte caráter matriarcal, como as "nanas", que eram figuras com seios e ancas acentuados (como as "Vênus" pré-históricas), e pela fantasia infantil (monstros e seres de fábulas).

Pátio de espelhos

Quando Niki de Saint-Phalle fala sobre o seu trabalho, descrive-o assim: "(...)[são] esculturas atemporais, lembranças de antigas culturas e sonhos(...)".
Na prática e nas dimensões gigantescas do parque "Jardim do Tarô", somos apresentados a ambientes fechados e abertos que quase imitam uma urbanização de uma micro-aldeia de um país inventado, onde podemos entrar nas eculturas em forma de casa (onde Niki morou), cachoeiras, praças, torres, muros e até uma igreja.

Praça e fonte

Os namorados, Jardim do Tarô de Niki de Saint-Phalle

Fundamental na sua biografia, e digo isso só por que influenciou muito o seu modo de trabalhar, foi o encontro com o genial artista suíco Jean Tinguely (quem já teve o prazer de ver as suas esculturas e fontes na Suíça sabe do que estou falando) e seu grupo de colegas que repudiava a arte informal que estava tão na moda naquele período, para reciclar objetos, transformar e dar um novo valor semântico a materiais considerados "lixo".

A Imperatriz, frente e lado - Jardim do Tarô de Niki de Saint-Phalle

Janela interior casa , Jardim do Tarô de Niki de Saint-Phalle

A respeito da criação deste parque onírico, que iniciou em 1979 e cuja construção durou mais de 17 anos, Niki afirma "(...) deixei a tortura [da sua "doença mental"] para trás. Eu sinto uma ligação mística com a natureza, com o ar, com a luz. Eu sou uma andarilha que procura obstinadamente um tesouro, mas que pouco antes da grande descoberta pára e toma consciência que a procura do tesouro é o próprio tesouro (...)". Prova disso é que as suas figuras estão harmoniosamente integradas na natureza da "Maremma toscana" (como é chamada esta região); são manchas de cor e vida no meio de oliveiras e pinheiros bravos sobre a terra ocra selvagem onde lobos e raposas caminham livremente.

Entrando na Imperatriz, casa de Niki de Saint-Phalle

Quarto e cozinha da casa da Imperatriz, Jardim do Tarô de Niki de Saint-Phalle

O Jardim do Tarô está dentro de uma tradição muito italiana iniciada no século XVI (Villa D'Este em Tivoli) e XVII (Bomarzo) de criar jardins fantásticos. Na sua aversão por linhas retas é também clara a influência do Parque Güell de Gaudi, em Barcelona, que a artista afirma ter conhecido em 1955.

Praça e torre
 
Fonte Tinguely, Jardim do Tarô de Niki de Saint-Phalle

Em 1998 o Jardim do Tarô foi aberto ao público com 22 criações nas formas dos arcanos maiores das cartas de tarô - a definição de "arcano" do dicionário Priberam é 1. Mistério, segredo.  2. Altos juízos.  3. Remédio secreto. São os "trunfos" do maço de cartas.

Varanda casa, Jardim do Tarô de Niki de Saint-Phalle


Niki de Saint-Phalle viveu dentro da "Imperatriz". Para mim, o grande pulo do gato é pegar o mapa-ticket que eles dão na entrada e ir diretinho lá, para chegar antes de todo mundo e ter o prazer de visitar sozinho esta parte tão especial do Jardim dos Tarôs, que foi a sua casa.  A janela redonda tem vista para o mar!
Vale à pena subir em todas as escadas onde for permitido subir, caminhar em todos os muros e sentar la frente da Fonte de Stravinsky (onde se vê bem a presença de Tinguely), que é a "Roda da Fortuna",  lá ficar por alguns minutos observando e deixando-se levar pelas formas criadas da artista que transformou seu sonho em realidade.

Mapa Jardim do Tarô de Niki de Saint-Phalle

Varanda, parte fechada , Jardim do Tarô de Niki de Saint-Phalle

Muito curioso também é como foi feito tudo isso: são estruturas em vergalhões tipo CA (fios de ferro) que dão a forma à construção/ escultura penetrável, cobertos por cimento e decorados com mosaicos e cerâmica pela ceramista romana Venera Finocchiaro. Os mosaicos são um tema à parte: espelhos e vidros de Murano ou de artesãos da República Tcheca, pastilhas de cerâmcia que foram modeladas e queimadas alí mesmo durante a construção. Nem todas as esculturas foram feitas em menor escala, para depois serem construídas, e quem encarou esta encrenca técnica da reprodução do modelo da Niki de Saint-Phalle foi o próprio Tinguely e um artista holandês, Doc Wilson. Venera Finocchiaro  modelava as peças em argila sobre a construção de cimento para que a aderência fosse perfeita, antes de queimá-las - por que você vai se perguntar "como eles conseguiram fazer isso?!" quando estiver lá.

Muroo exterior da praça com a fonte e parede da Torre à direita; "pórtico" na foto da direita


Pendurado, Jardim do Tarô de Niki de Saint-Phalle

As esculturas menores com cores vibrantes: a Temperança, os Namorados, a Papisa, o Mundo, o Eremita, a Morte e o Pendurado, e "la Scelta" (número VI no mapa e qua não sei qual carta seja em português!!!) foram feitas na França, por Niki e seu assistente Marcello Zitelli e transformadas em esculturas de resina de poliéster pelo artista francês Gerard Haligon, que até hoje é o restaurador oficial das peças do Jardim."

Pórtico, Jardim do Tarô de Niki de Saint-Phalle

Antes de ir, olhava as fotos e pensava que fosse uma coisa "até que divertida", para crianças...

Igreja, exterior e interior, Jardim do Tarô de Niki de Saint-Phalle


Quando cheguei lá fiquei profundamente comovida com o parque e fui envolvida pela sua atmosfera profundamente harmônica, pela história da vida da artista, pela natureza, enfim, pelo cuidado e amor com o qual tudo isso foi construído... e ainda por cima todo o esforço que deve ter sido conseguir este terreno (da família nobre Caracciolo) e levantar os fundos de 10 milhões de Liras (quase 10 milhões de euros) de iniciativa privada para realizar esta enorme obra... simplesmente para todo o pessoal que tem vindo à Itália e feito esta viagem entre "Florença e Roma" de carro, uma parada aqui é como caminhar algumas horas em um sonho.

Interior da Imperatriz, casa de Niki de Saint-Phalle

Bibliografia:
"Niki de Saint-Phalle", por Carla-Schulz Hoffmann
ilgiardinodeitarocchi.it

INFORMAÇÕES PRÁTICAS sobre o Jardim do Tarô de Niki de Saint-Phalle:
É um passeio para crianças pequenas e adultos até à idade onde subir escadas e as pequenas irregularidades do terreno seja um prazer. Tem uma fonte de água potável e bancos e áreas para descansar durante o percurso.

De Roma são 132 km percorríveis em 1h40min na estrada E80.
Não é possível chegar com os meios de transporte público e não há restaurantes por perto (só um pequeno quiosque com comida congelada, bebidas e sorvetes industriais); coma bem antes de chegar!

O Jardim só abria de tarde quando eu fui. Ligue antes para confirmar o horário de abertura que não está anunciado no site oficial!


Loc. Garavicchio, 58011 Capalbio Grosseto
Tel. +39-0564-895122
ilgiardinodeitarocchi.it

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Catacumbas de São Calixto na Via Appia

No maravilhoso parque da Via Appia existem as mais famosas catacumbas, ou cemitérios dos primeiros cristãos. Essas catacumbas são das mais importantes e famosas pois possuem a Crypta dos Papas, pois no passado teve sepulturas de 8 bispos e 9 papas do séc. III d.C. (mesmo por que bispos e papas nos anos a.C. não existiam, não é mesmo?!).

Cripta dos papas

A "cripta" (caverna ou catacumba) dos papas é o momento mais emocionante da visita, pois aqui vemos algumas incrições em lastras sepulcrais com as iniciais epì(scopos) = bispo  ou  MTR = mártir. Além disso foi montado um pequeno altar com colunas retorcidas em mármore, que acentuam a sacralidade deste lugar - este passeio é ideal para quem é fiel ou ama a  história do cristianismo, como eu!

Afresco Jonas

As catacumbas foram escavadas no substrato de origem lávica, o tufo, que servia perfeitamente à função de cemitério, pois é uma pedra "maleável" quando se escava, mas após algum tempo em contato com o oxigênio, se solidifica e fica bem resistente.

Afresco Batismo

Estas catacumbas foram descobertas no século XIX pelo famoso e amado arqueólogo De Rossi. A maioria delas, já tinham sido naquele tempo, infelizmente, profanadas por bárbaros que procuravam no tesouros, como metais e pedras preciosas no seu interior.

Diversos afrescos
 
Logo depois da cripta dos papas, podemos apreciar a cripta da Santa Cecília alguns afrescos com a  representação da santa orando e do Cristo Onipotente com a bíblia na mão.

Afresco multiplicação pães e ânforas

Do ponto de vista iconográfico, o que mais vemos nestas catacumbas de São Calisto é o mito de Jonas, comparado ao Cristo, por ter ficado "três dias no ventre do peixe", Mateus 12-40: " Portanto, assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre de um grande peixe, assim o Filho do homem estará três dias e três noites no coração da terra. " É emocionante ver uma das primeiras representações de Jonas, do III século e pensar ao enorme Jonas do Michelangelo da Capela Sistina e refletir sobre o desenvolvimento da iconografia cristã, que, como já disse, é uma minha grande paixão!

Afresco Santa Cecilia e Cristo Onipotente

Após este passeio, os cristãos saem com a fé reforçada e os interessados por arte colocam mais uma peçinha no quebra-cabeça que é esta nossa História da Arte!


Para o seu roteiro personalizado na Itália com guia em português não hesite em escrever para Guia Brasileira em Roma para pedir seu orçamento.

Endereço das Catacumbas de São Calixto:
Via Appia Antica, 110/126

Horário de Abertura: Orario di apertura 09.00 -12.00 // 14.00-17.00
Fecho: quartas-feiras; De 26 Janeiro a 22 fevereiro  2017: Pausa invernal: Fechada dia 25 dicembre, 01 Janeiros e domingo de Páscoa.
Ingresso: € 8