segunda-feira, 27 de junho de 2016

A Mansão de Livia



A Mansão de Livia – ad gallinas albas


« (...) Livia Drusilla, que depois do casamento chamou-se Augusta, quando tinha a data fixada do casamento com César, uma águia deixou cair no seu colo, intacta,uma galinha de um branco extraordinário, (...)este fato aconteceu  na mansão dos Césares ao longo do rio Tibre, no nono milho da via Flamínia, que por isso ficou conhecida como ad Gallinas.... »
Plinio, Historia Naturalis , XV, 136-137

Roma nível III, para quem já viu o básico de Roma, algumas partes dos arredores, como ÓstiaAntiga, Villa  Adriana, Região dos Lagos e alguns museus além do Vaticano: você está pronto para ver mais uma curiosidade do mundo antigo: a discreta “Mansão de Lívia”. Lívia foi a esposa do primeiro imperador, Augusto, e quando encontraram esta mansão do campo no século XIX, os arqeueólogos decidiram de chamá-la “de Livia” pois esta mansão tinha pertencido à sua família (lado paterno). Trata-se, então, de uma mansão do período republicano e esta é uma das razões que nos traz à esta zona, a somente a 20km de Roma.

Esta mansão foi mencionada nao somente por Plinio, mas também por Suetônio (Galba 1) e Dião Cássio.

Corpo central da Mansão de Lívia
Mansão de Livia, visao geral
 
 Jardim da Mansão de Lívia
 Cultivaçao de louros

As indicações nos textos antigos era muito clara: a mansão tinha sido construida numa colina perto da marcação do IX milho da Via Flamínia, uma das antigas estradas romanas que levavam ao norte. Hoje em dia o glamour antigo infelizmente não pode ser percebido, a menos que a sua guia o traga de volta, descrevendo o que deve ter sido isso na virada do milênio, isto é quando Augusto e Lívia passavam seu tempo relaxando aqui!

 Afrescos da Mansão de Lívia
 Exemplo de afresco do atrio, com o preto especial

Afrescos da Mansão de Lívia
Afrescos dos aposentos dos hospedes

Curiosa a lenda que deu o sobrenome à mansão “ad gallinas albas”, que conta a estória de uma galinha branca que teria caído com um ramo de louro no bico das presas de uma águia, bem no colo da imperatriz. Imediatamente este fato foi considerado como uma mensagem dos deuses e foi plantado um “loureto”; a galinha foi criada na propriedade, dando início à uma criação de galinhas brancas. Todos os triunfos que Augusto celebrou tiveram uma coroa de louros que vinham desta propriedade; e no periodo de Nero, conta-se que a cultivaçao secou!

Piscina e mosaicos da  Mansão de Lívia
A "natatio"

Nesta mansão caracterizada pela austeridade (um dos principais valores da política de Augusto), vemos a parte privada do casal imperial, a parte onde recebiam hóspedes e até onde os aposentos de eventuais hóspedes. Veremos o impluvium, a plantação de hervas e temperos (re-plantada como na antiguidade!), termas, hipocaustos, restos de afrescos e tapetes com mosaicos (geométricos e figurativos).

Mosaicos pavimentais da Mansão de Lívia de Prima Porta
Mosaicos com temas geometricos

Mas a maior emoção é, sem dúvida, ver o famoso semi-hipogeu de onde os restauradores destacaram os afrescos maravilhosos que estão no último andar do Palácio Mássimo. Para quem conhece este museu e estes afrescos, vir a esta Mansao de Lívia nos arredores de Roma é poder atravessar mais uma porta do passado e viver a emoção da beleza e aromas da antiguidade, a raiz da nossa sociedade.

Hipogeu, Mansão de Lívia de Prima Porta 
O famoso semi-ipogeo com tecidos que lembram os maravilhosos afrescos

Para o seu roteiro personalizado na Itália com guia em português não hesite em escrever para Guia Brasileira em Roma para pedir seu orçamento. 

Como chegar: 
A Villa di Livia fica no interior do parque da comune de Prima Porta
Via della Villa di Livia, Prima Porta.
Com os meios de transporte público: trenzinho de Roma, a partir do Piazzale Flaminio/ Euclide, Ferrovie Roma Nord, estação Prima Porta; de carro a partir de Roma: Via Flaminia, direção Prima Porta, cemitério. 
É aconselhável reservar: +39 06 399 67 700 

domingo, 12 de junho de 2016

A Revolução Cristã

Se você já viu Vaticano e Coliseu e deseja voltar à Roma, está pronto para entrar no maravilhoso mundo da aurora do cristianismo, este momento único da nossa história em que, praticamente, o mundo foi dormir pagão e acordou cristão. 

Bom Pastor, imagem em Catacumba
O "Bom Pastor", Catacumbas de Domitilla

Quem realmente gosta de Roma e, realmente, se interessa por História não pode ficar indiferente a este acontecimento revolucionário do mundo ocidental que foi o início do Cristianismo e as suas consequências na Arte, Arquitetura, nos usos e costumes da sociedade. Esta questão nos leva a outros mundo e nos faz atravessar milênios. Ninguém é o mesmo depois de uma excursão às catacumbas ou igrejas do IV século, as chamadas igrejas “paleocristãs”.

Santa Sabina

Cresci numa casa marcada pelas Ciências Humanas e meu foco para ver e interpretar o mundo é enraizado neste aspecto. Digo isso por que do meu ponto de vista, a iconografia cristã com a sua linguagem extremamente refinada é um dos temas mais interessantes para o viajante que já fez o básico em Roma. Aqui você pode acompanhar desde o início o resultado do “choque” e “síntese” entre as culturas pagã (que concebia seus deuses em formas extremamente realistas e antropomórficas) e judaica (que condenava a representação de Deus).

São Paulo Fora dos Muros

Santa Maria Maior

Num primeiro momento assistiremos à uma dissolução da arte clássica, acompanhada de uma re-semantização de temas pagãos (famoso o Orfeu) e do surgimento de inscrições simbólicas como o peixe-acrônimo (ΙΧΘΥΣ isto é, Ichtús no alfabeto em latim Jesus Cristo Filho de Deus), e em seguida a representação de cenas bíblicas (Jonas) e evangélicas (Lázaro), conotações claras à salvação e à ressurreição.

Jonas, afresco em catacumbas
 "Jonas", Catacumbas de São Calixto

Não sei se dá para perceber que através deste momento do cristianismo conseguimos seguir passo por passo um momento em que a mente humana atribui significados simbólicos a um evento histórico, com consequente desenvolvimento de uma iconografia e de valores que vão ser a base da nossa cultura. Não é sensacional?

Orador, afresco em catacumba
"Orador", Catacumbas de São Calixto

A nossa excursão nos mostra o início deste momento tão importante para cristãos, ateus ou pessoas de outras religiões. Vem com a gente!

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Bibliografia:
F. Bisconti, "Temi di iconografia paleocristiana" , Roma, PIAC; 2000
G.C. Argan, "Storia dell'Arte italiana", Roma, Sansoni, 1988
Aulas da Profssa. Elena Zocca, "Storia del Cristianesimo", Fac. Lettere e Filosofia, La Sapienza.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Afrescos Medievais da Capela de São Silvestre

A capela de São Silvestre do complexo dos Santos Quatro Coronati oferece um ciclo de pinturas medievais do mesmo período (em torno ao ano de 1246).

Afrescos Medievais com histórias de Constantino

Aqui as representações são mais usuais, pois se trata de histórias da vida do Imperador Constantino e de Papa Silvestre.

A capela de dimensões modestas é uma construção composta por uma única nave e sem ábside, com “scarsella” (altar de pequenas dimensões e com planta quadrada). O teto apresenta uma cor clara, provavelmente para ajudar a iluminar o ambiente na época em que foi construída, dado que em tempos difíceis, aberturas e janelas grandes não eram uma boa ideia!

Arquitetura Capela de São Silvestre

Incrível e um unicum as inserções policromáticas no teto, em forma de cruz.

Sobre a porta de entrada temos um “Juizo Final” com Cristo no centro entre a Virgem e o João Batista. No segundo plano, vemos os objetos do martírio: pregos, lanças e a coroa de espinhos.

Afrescos da Capela de São Silvestre, com histórias de Constantino

A iconografia da parede de entrada é ligada ao papa “em exílio no Monte Soratte” conta a história de Constantino quando esteve com lepra e a visão dos santos Pedro e Paulo, que o aconselham buscar o papa Silvestre e trazê-lo de volta à Roma. As cenas seguintes se extendem à parede da esquerda e se referem ao milagre da cura do mal de Constantino e a gratidão e batismo do imperador. A parede direita da capela conta histórias de Santa Helena, mãe do imperador Constantino e reponsável pelo achamento da Santa Cruz em Jerusalém.

Altar e pavimento cosmatesco da Capela de São Silvestro


Afrescos com histórias de Constantino

Apesar da técnica ainda não ter um desenvolvimento completo, pois os afrescos não são dos mesmos maestros da Aula Gotica: as figuras não transmitem uma sensação de espaço tridimensional e as representações da Natureza ainda estão longe do realismo do Renascimento, mas o simples fato de  poder ver afrescos deste período em ótimo estado de conservação é uma experiência pra lá de enriquecedoura.

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Oratório de S. Silvestre
Endereço: Via dei Santi Quattro, 20
Horários: 10.00 - 11.45 / 16.00 - 17.45 (fechado domingos de manhã).

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Aula Gotica e o afresco no século XIII em Roma

Em Roma as emoções sempre se renovam. A cidade eterna conta com descobertas excepcionais no século XX e XXI sobre o passado. Neste post vamos falar de um ciclo de afrescos da primeira metade do século XIII, descoberto em 1996 e restaurados por quase 10 anos e raramente abertos ao público: a chamada “Aula Gótica”.

Aula Gótica, afrescos especiais do período medieval em Roma
 Foto: Laboratorio fotográfico da Superintendência Especial para o patrimônio histórico artístico etnoantropológico e para o Polo museal da cidade de Roma

Situada na antiga estrada conhecida como “Via Latina”, no interior complexo dos Santos Coronati, em uma torre do IX° século foram descobertos afrescos que mais uma vez contradizem a visão toscanocêntrica do Renascimento e que em Roma existiu, sim, uma continuidade na produção artística de altíssima qualidade durante os séculos e que provavelmente alimentou as grandes mentes e mãos que parteciparam da aurora do Renascimento, pois foram finalizados no ano de 1243 (poderíamos até hipotizar uma visita do jovem Giotto a este complexo).

 Foto: Laboratorio fotográfico da Superintendência Especial para o patrimônio histórico artístico etnoantropológico e para o Polo museal da cidade de Roma

O palácio cardinalício de Stefano Conti, vicário de papa Inocêncio IV conta hoje com os antigos muros, torre e metade da antiga igreja carolíngea (destruída no incêndio de Roberto Guiscardo em 1084), com uma capela da igreja de São Silvestro e o monastério de irmãs agostinianas em clausura, aqui desde 1560.

Foto: Site Santos Coronati

Mas é essa Aula, este grande ambiente dividido em duas partes, com afrescos sobre uma área que chegou até nós de 300m2,  com seu programa iconográfico sobre o conflito entre Igreja e Império que nos interessa. Os historiadores afirmam que aqui aconteciam banquetes e julgamentos, através da interpretação da grande imagem central de Salomão exercendo a função de juiz.

  Foto: Laboratorio fotográfico da Superintendência Especial para o patrimônio histórico artístico etnoantropológico e para o Polo museal da cidade de Roma

O primeiro ambiente que entramos contém afrescos que falam do passar do tempo em forma das estações, as atividades quotidianas ligadas à terra e à preparação de alimentos, com os nomes dos meses do ano. Por exemplo, Janeiro é representado com a preparação da salsicha e com uma figura de Jano Bifronte. Em Fevereiro temos a preparação do vinhedo. Interessante e de grande valor artístico e histórico o mês de Março, onde uma figura feminina tira um espinho do pé de uma figura masculina (ou faz alguma coisa muito parecida com esta atividade). O mês de Abril é representado com um pastor e seu rebanho; Maio tem um cavalheiro sobre um cavalo branco, e por aí vai.

Na linha superior há uma representação das Artes do Trívio e Quadrívio (percurso de estudos preliminares antes dos estudos universitários): exaltação das ciências que elevam o espírito.
Os penachos arrematam a decoração do tempo com as “quatro estações da vida do homem”.
No teto temos um afresco que representa a terra, chata como uma pizza e circundada por água e tritões.

No segundo ambiente encontramos uma iconografia mais complexa, concentrada na vida espiritual, com representações da glorificação da Igreja, alegorias das Virtudes com personagens do Antigo e Novo Testamento, os clássicos pavões e uma cena do triunfo das igrejas celeste e terrena: a afirmação alegórica é clara: é a Igreja é a instituição que legitima o poder do imperador.

Vemos também representados São Francisco (morto em 1226) e São Domingo (morto em 1221) faz com que pensemos que Stefano Conti chego a conhecer pessoalmente estes dois extraordinários personagens, muito por que, a sua Ordem tinha sido aprovada por seu tio, Inocêncio III!

A alusão ao "spinario" e ao deus Mitra confirmam um conhecimento da arte antiga, com grande capacidade de representação de tridimensionalidade e espaço que denotam a famosa linha vermelha que nunca foi interrompida no desenvolvimento da arte romana! Uma visita para experts ou apaixonados por arte e história!

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Monastério dos Santi Coronati
Via dello Statuto, 44
Email: archeocontesti@gmail.com 
Info: 335.495248 
seg-sex 9.00 -13.00 / 14.00- 17.00